Salvador, Brasil. 2010-09-09.
 
 
 
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Cinema
Leonardo Campos Cerqueira
Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira - Inglês - UFBA


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Dia Internacional da Mulher: data comemorativa?
Pituba • 08 Março 2010

Pituba Hoje, 8 de março, dia internacional da mulher. Teriam as mulheres motivos para comemorar? De acordo com as regras do capitalismo efervescente, sim, dia de muitos presentes, mimos e caixas recheados de dinheiro e cartões efetuando débito nas floriculturas, perfumarias e motéis espalhados pela cidade. Por outro lado, seguindo a ótica realista, não. É um dia de protesto contra a situação da mulher no panorama cultural mundial, que insiste em apresentar a classe atrelada numa perspectiva redutora, na condição de dona de casa ou simplesmente passiva ao marido. Visando melhor explanação do assunto, vamos primeiro fazer um breve panorama histórico, para tentar definir, em poucas linhas, o que seria o Dia internacional da Mulher.

O primeiro ângulo a iluminar neste artigo é o cunho histórico do movimento: celebrado em 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher tem origem nas manifestações femininas por melhores condições de trabalho e direito de voto, que datam do início do século XX, na Europa e nos Estados Unidos. Adotada em convenção pelas Nações Unidas, em 1975, serve para lembrar tanto as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, assim como os atos discriminatórios e de violência a que muitas mulheres ainda estão sujeitas ao redor do mundo, muitas delas, vítimas de violência de cunho doméstico e do terrível tráfico de seres humanos, o turismo sexual, no senso comum.

Apesar de revitalizado pelo movimento feminista nos anos 60, o Dia Internacional da mulher perdeu a sua principal característica, sendo massificado na cultura da mídia sob a ótica do capitalismo. Vejamos como isso está presente de forma implicita na mídia de forma geral: cinema, literatura, música e outros meios do ramo da publicidade.

No cinema, apesar de emblemáticas vitórias, como o primeiro Oscar de direção para uma mulher, Katherine Bigelow, de Guerra ao terror, entregue ontem a noite, temos a ideia de submissão ainda incultida e massificada pela voraz mídia, como é o caso clássico de Crepúsculo, filme antifeminista, onde Bella, a mocinha protagonista, vai ceder a sua vontade de viver pelo amor de Edward, o vampirinho favorito das adolescentes. Adaptado de outro formato bastante massificado, que são os livros da Saga Twilight, escritos supreendemente por uma mulher que nega a condição da sua classe, a riquissíma Sthepenie Meyer, o ideal de mulher romântica, submissa, que figurava os romanescos A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho e Madame Bovary, de Gustave Flaubert estão expostos abertamente para o público que infelizmente não está treinado a manter distanciamento, levando estas história contraditórias a cair nas graças do público.

A literatura de Jorge Amado, que traz textos fluentes e divertidos foi alvo de críticas no passado, por apresentar uma visão igualmente redutora de mulher. Apesar das personagens fortes, grandes divas, as muheres amadianas geralmente estão atreladas ao contexto sexual, vide Dona Flor, Gabriela e Tieta do Agreste, as principais representantes do seu perfil de mulheres. Trazendo essa visão de mulher para o contexto contemporâneo, as mulheres amadianas, massificadas pelo mundo através das inúmeras traduções da obra de Jorge Amado para diversas línguas, considerada por muitos críticos como parte dos sedimentos responsáveis pela construção do imaginário de mulher baiana (e brasileira) mundo afora, agora foram substituídas pela mulher da música contemporânea brasileira. Indicadas a esfregar a xana no asfalto, abaixar a rachadinha ou ralar na boquinha da garrafa, a vulgarização da mulher mundo afora alcançou seu ápice em episódios recentes como a polêmica professora “toda enfiada”, cultuada por alguns e odiada por tantos outros.

Então, mulheres, vocês ainda tem muito o que comemorar? Se depender do comercial veiculado ontem, durante o Fantástico, pela Caixa Econômica Federal, não. Principalmente se você for uma mulher nordestina. No comercial, são apresentadas mulheres de vários perfis. O interessante é perceber que a médica, a arquiteta e a advogada são representates das regiões sul e sudeste, fazendo belo panorama dos cargos ditos bem sucedidos financeiramente. As mulheres nordestinas, que ainda habitam o imaginário euclidiano masculino de serem “um forte”, são relegadas a profissões não tão bem sucedidas financeiramente, como cortadora de cana, costureira ou segurança. E você, o que acha?


 
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